Era a lagarta mais linda que eu já vi, era especialmente única, diferente das outras. Às vezes enquanto cuidava do jardim, esticava a mão e ela subia em meu dedo dando-me a chance de me aproximar dela e eu gostava disso, mesmo que fossem por alguns segundos apenas. Um dia, enfim, fechou-se em seu casulo sem me dizer nada, sem me explicar nada, e não que devesse porque eu sabia que isso aconteceria uma hora ou outra. Eu apenas ficava la, de fora, de longe guardando-a para que nada de ruim lhe acontecesse, para que nenhum mal feito a atingisse. Dei seu tempo, para que saísse do casulo quando se sentisse a vontade pra isso, deixei que dividisse comigo o que achava que era preciso. Dias se passaram e então, la estava ela, já era uma borboleta e como não poderia ser diferente era a mais linda entre as outras. Gostava dela porque sentia que ela gostava de mim, era como se nada mais importasse se ela estivesse ali. Mas não era sempre assim, ela visitava meu jardim, me deixava crente de que dessa vez era pra ficar e de repente, sumia. Visitava milhões de outros jardins e milhares de outras flores por ai, eu nunca reclamei e nem podia, não tinha esse direito, a borboleta não era minha por mais que eu a quisesse. Algumas vezes ela demorava mais a voltar, eu dizia e repetia infinitas vezes pra mim que não sentia mais sua falta, que não a queria mais. Quando estava quase me convencendo disso, la estava ela, pairando sobre minha janela me trazendo alegria, fixando um sorriso abobalhado em meu rosto. Ah borboleta, chega desse vai e vem, é demais pra mim. Um dia eu vou desistir dela, talvez não porque eu queira, mas porque será preciso seguir em frente, encontrar outras lagartas, outros casulos, outras borboletas. Cultivar outros jardins.
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