‘’Com meu diário, quero dizer que pretendo ir mais adiante; não posso me imaginar vivendo como mamãe e todas aquelas mulheres que cumprem suas obrigações e mais tarde são esquecidas. Eu preciso ter algo mais que um marido e filhos, algo que possa me devotar totalmente. Quero continuar vivendo depois da minha morte. ‘’ – Anne Frank
domingo, 14 de outubro de 2012
É só isso, ou tudo isso
Gosto de ouvir as pessoas falando delas mesmas, acho engraçado, acho bonito. Admiro quem consegue falar de si porque eu mesma, sinceramente, não sei falar de mim. Acho que é porque, acredite se quiser, não convivo comigo. A Andréa que deveria estar aqui dentro todos os dias fica dando voltas por ai, querendo saber mais sobre as outras pessoas do que sobre mim, pode isso? O pouco que sei é que gosto de molhar os pés ou as mãos em água gelada em dias de calor, lavar o rosto depois de passar o dia fora de casa, cheiro de lençol limpo, pentear os cabelos, a luz que entra no meu quarto às seis da manhã, primeiro beijo depois de ficar muito tempo distante, telefonemas inesperados de madrugada, receber cartas, ouvir uma música que me faz lembrar um momento bom da minha vida, jogar fora coisas inúteis que só ocupam espaço no armário, ajudar algum animal de rua, conversar com pessoas idosas, receber sorrisos de desconhecidos na rua, reencontrar um velho amigo e perceber que tudo continua igual, tomar água depois de ter comido algo muito doce, abraçar minha mãe, ler algum livro ou artigo de alguma coisa interessante, dar risada de vídeos idiotas do youtube, cantar músicas extremamente bregas com minhas amigas, rir de mim mesma, aprender com meus erros, aprender que mesmo que eu tenha acertado uma vez não quer dizer que estou fazendo tudo certo... Acho que é só isso, ou tudo isso. Tem dias que acordo me amando simplesmente por ser eu, já outros dias evito até me olha no espelho, pois não me suporto. E tudo isso faz parte, não é mesmo? Essa eterna relação de amor e ódio comigo mesma, com meus pensamentos e com o jeito como encaro as coisas. Minha única certeza na verdade é que me esforço para me agradar, e acho que isso já é o suficiente. Só não entendo a necessidade das pessoas de ficar o tempo todo me perguntando se sou feliz. Se querem saber, não eu não sou, mas não me leve a mal: eu também não sou infeliz. Eu simplesmente me sinto muito vazia a maior parte do tempo. Meio inútil. Provavelmente porque eu sou muito precoce e sempre tivesse que correr ao invés de caminhar - metaforicamente falando - e sempre estar pensando em tudo antes de fazer, de falar. Sempre tive que me provar o tempo todo e pra todo mundo, e isso cansa. Cansa e suga muito de ti. Eu gosto, mas eu estou um pouco cansada. Eu sinto como se me faltasse algo. Eu literalmente sinto como se eu fosse vazia e faltasse alguma coisa. Eu só não sei o que é. Às vezes eu tenho medo que eu tenha, sei lá, "quebrado" por causa de todas as coisas que já me aconteceram. Eu vejo tanta gente que passou por muito menos do que eu que enlouqueceu - literalmente! - e eu fico pensando se eu também enlouqueci, só que não sei disso ainda. Afinal, como é que se sabe que você tá louco? Será que os loucos sabem que são loucos ou eles são como eu, que acham que estão perfeitamente sãos e que o problema está nos outros? Eu não me sinto mal. Eu gosto de mim, gosto da minha vida. Mas às vezes eu penso demais sobre as coisas e fico mal, eu fico triste porque eu sei que eu nunca vou recuperar certas amizades e certas relações, por mais que eu quisesse. Eu sei que provavelmente nunca vou ser amada por ninguém tanto quanto eu amo as pessoas. Eu sei que as pessoas nunca vão entender que eu não faço as coisas por maldade, e sim porque eu não sei ser de outro jeito. Eu sei que as pessoas sempre vão me ver como a problemática, a arrogante, a que se acha superior aos outros, e talvez algumas delas estejam até certas quanto a isso. Talvez eu seja uma pessoa ruim. Eu só não acho que eu me conheça direito. Acho que eu tenho que me conhecer melhor. Ser deixada um pouco sozinha. Preciso de gente que entenda que minha mente realmente não acompanha o passo cordial e lento das outras pessoas. Eu preciso de alguém que entenda que a minha vida só é minha vida se eu conseguir fugir da realidade, seja escrevendo, seja na minha cabeça. Eu preciso de gente que entenda o que eu digo. Eu preciso ter mais certeza de que eu não vou cometer com meus amigos e meus filhos os erros que cometeram comigo, e, principalmente, que não deixarei que cometam com eles. Eu tenho medo de falhar em tudo que eu quero. As pessoas ao meu redor não conseguem se segurar a mim e irem junto comigo. Sou meio sozinha. Não posso reclamar. Não sou infeliz. Só não sou completa; e pra mim, não ser completa e não ser feliz são sinônimos.
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